Não é sem motivos que a indústria automobilística cativa milhões de fãs no mundo inteiro. É claro que a natural fascinação do ser humano por velocidade e status facilita essa relação de quase idolatria dos fãs para com as grandes marcas. Mas isso, somente, não seria capaz de manter um leque tão vasto de admiradores. Para além disso, a indústria automobilística teria que ter algum atrativo comum, capaz de chamar igualmente a atenção de homens, mulheres e crianças dos mais variados cantos do planeta. Esta característica não é inerente a indústria automobilística como um todo. Ao contrário, é perseguida dia após dia por cada marca, e somente aquelas que a alcançam sobrevivem no mercado (e ganham a admiração dos fãs): é a capacidade de inovar.
Quase uma rainha da inovação, a Mercedes-Benz se superou outra vez com o lançamento da SLS AMG. Olhando as fotos desta página você deve estar pensando que já viu algo semelhante em algum lugar (e questionando que inovação é essa). Não é apenas impressão sua. A enorme entrada de ar na dianteira atravessada por um friso com o também colossal símbolo da marca, os vincos laterais, o capô longo que deixa os bancos do motorista e passageiro quase que assentados sobre as rodas traseiras e, sobretudo, as portas que se abrem em forma asas de gaivota são características de outro carro da marca alemã que você já deve ter visto por aí. O que fascina é que esse outro carro é o 300 SL, modelo de corrida da Mercedes adaptado às ruas em 1954. Gullwing (ou Asas de Gaivota) como era chamado, considerado ainda hoje um dos modelos mais charmosos já produzidos, o 300 SL fez escola nas pistas e nas ruas da década de 50 do século passado.
Lançado às vésperas do Salão do Automóvel de Frankfurt, o Mercedes-Benz SLS AMG veio em tom de resposta. É que depois que a Mercedes rompeu, no que concerne a carros de rua, sua parceria com a marca inglesa McLaren, ouviu-se nos bastidores da indústria automobilística que a experiência moderna da Mercedes com os carros superesportivos tinha se encerrado junto com o SLR McLaren (bólido que foi o último fruto da parceria e parou de ser produzido em meados deste ano). Assim foi que, aliada à sua tradicional preparadora de bólidos, a AMG, a Mercedes-Benz foi buscar no clássico da década de 50 a inspiração para criar essa máquina. Esteticamente o SLS é uma primazia que conseguiu resgatar da melhor maneira possível as formas do Asas de Gaivota, mas não é de desenho que vive um superesportivo…
Sabedora da importância do desempenho em um carro desse porte, a marca alemã não hesitou. Equipou o carro com a menina dos olhos da AMG, um V8 6,2l que, especialmente modificado para equipar o SLS, desenvolve a potência de 571 cv a 6.800 rpm. O novo Gullwing é leve, pesando somente 1.620 kg. Esse peso, viabilizado pelo chassi tubular de alumínio, reflete no torque, que às 4.750 rotações por minuto chega a 66.3 m.kgf. Colocada em movimento, toda essa engenharia leva o SLS de 0 a 100 km/h em 3,8 segundos, de acordo com testes da própria montadora. A velocidade, também de acordo com a fábrica, chega a 317 km/h.
Para aperfeiçoar o rendimento dessa nova interpretação de um carro tão importante a Mercedes lançou mão de recursos dos mais tecnológicos. O primeiro deles veio da Fórmula-1, onde é conhecido como Kers, e trabalha com a conversão de parte da energia gerada nas frenagens por meio do atrito do disco de freio com a roda em energia mecânica a ser utilizada pelo motor na aceleração. Outra novidade é a caixa de câmbio. Batizada de AMG Speedshift, a caixa trabalha com duas embreagens, alternando entre elas a passagem de marcha e possibilitando que mudanças de marcha sejam realizadas em impressionantes 100 milisegundos. Tecnologia a parte, o melhor dessa caixa de câmbio é que ela permite ao motorista fazer uso da opção de trocas manuais, opção ausente no SLR McLaren e cada vez mais difícil de ver em carros da Mercedes-Benz. Além do modo manual, existem mais três modos de utilização do câmbio: Eficiência controlada (nomenclatura inédita e super interessante), Esporte e Esporte mais. Localizada na parte traseira do carro, a caixa de câmbio despeja a potência do motor ali mesmo, nas rodas traseiras.
Opção de trocas de marcha manuais e tração traseira já transformam o SLS em um brinquedo bastante divertido. Mas a Mercedes não parou aí. Disponibilizou no seu mais novo superesportivo a opção de guiar sem a assistência do controle eletrônico de estabilidade. Para os menos ousados, há ainda os modos esporte e normal, sendo que neste último o controle atua com maior vigor. Rodas dianteiras aro 19 e traseiras aro 20 garantem mais diversão ainda para a dirigibilidade
Satisfeita com o conjunto mecânico do carro, a Mercedes não sentiu necessidade de envolver o cockpit com a mesma esportividade. Assim, diferentemente do modelo de 1954 em que o motorista lidava com um barulho altíssimo vindo do motor e não amortizado (vale lembrar que o 300 SL era um modelo de corrida que foi adaptado às ruas) e um interior demasiado simples (o que para esportivos daquela época não era tosco, mas essencial), o SLS oferece conforto: banco de couro com cinco opções de cor , regulagens eletrônicas de posição do volante, bancos e encostos de cabeça. Lá dentro as formas são esculpidas com clara inspiração de cockpits de aviões e, a despeito dos difusores de ar no estilo retro, as semelhanças com o interior do clássico de meio século atrás são bem limitadas.
Os engenheiros da Mercedes-Benz, ao se referirem ao SLS AMG, gostam de dizer que esta máquina é uma interpretação do 300 SL de 1954. É uma forma de agregar 50 anos de desenvolvimento tecnológico a uma obra de arte e criar outra tão valorosa hoje como a primeira era em sua época. Como toda obra de arte que se preze, a SLS AMG tem seu preço: 180 mil euros, para ser mais exato. No Brasil, com toda a generosidade de impostos que garantem condições de asfalto e trânsito impecáveis, o preço do bólido não deve sair por menos de R$ 600 mil.











Texto elegante…impecável!
Com 600 mil dá mesmo para sustentar mais 8 mil vereadores patrocinados por nossos IPIs, ICMS e outros.
Pena que não dá mais tempo de visitar o salão de Frankfurt!